sábado, 27 de novembro de 2010

A pretensa Guerra contra o Tráfico

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Essa pretensa Guerra contra o Tráfico no Rio de Janeiro pretende humilhar os "criminosos", mas humilha mesmo a população das favelas, os direitos humanos, e até mesmo sua idéia tão cara de "Estado Democrático de Direito". Em nome de pretensos valores universais, com a retórica da paz, a demagogia da soberania nacional e a falácia da "necessidade da presença do Estado" em tudo o que é lugar, criaram-se uma entidade do mal, invisível, onipresente e onipotente, no qual é dever de todos combatê-la: o terrorismo. Essa criação faz parte do desesperado anseio brasileiro de fazer parte da história mundial. E pior é que, de certo modo, o consegue. Também é brasileiro, assim como o é de todo o Ocidente, o pensamento simplório de um discurso salvacionista encharcado pela mesmice da análise pseudo-crítica. A análise sociológica, política, humanística, psicológica e histórica fica sob a responsabilidade de manchetes jornalísticas supervalorizadas, de velhos conhecidos, pretensos intelectuais, que são convidados a falarem em programas de entrevista e, ainda, a mídia informal desesperada e de informações apressadas de blogs e twitter alarmistas. Ou seja, tais análises "críticas" ou "de contexto" são incapazes de autocrítica. Não há nem mesmo vontade de compreender suas próprias falhas: é sempre o eterno retorno da mesma idiotia das Cruzadas.

Lembremos: toda análise apressada e alarmista é por definição narcisista consigo mesma. E a análise que está norteando todo o modo de pensar sobre os últimos acontecimentos no Rio de Janeiro é a de que, os morros dessa "cidade maravilhosa" devem ser pacificados. Tal conceito é um velho conhecido nosso já os bandeirantes o utilizavam para definir a aniquilação de indígenas "arredios" e de escravos/as "fugidos/as", com o intuito de "liberar" a região para o "progresso" brasileiro fincar suas fundações. A linguagem pode até ter mudado de lá para cá, mas o discurso é o mesmo. Máscara furtiva da velha convicção ocidental: o desprezo pelos anseios da pessoa concreta, no caso, o/a morador/a do morro; desse modo nega se a essas pessoas todos os seus aspectos únicos e intransferíveis em prol de uma imagem abstrata do/a mesmo/a, "o cidadão acuado, refém dos criminosos". Essa negação, de caráter tradicional, mede cada vida singular pela abstração, talvez a mais perversa, "humanidade". Perversa, pois, qualquer característica singular fora da abstração é considerada inumana. Pensamento simplório de um discurso salvacionista encharcado pela mesmice da análise pseudo-crítica: todo/a morador/a é um inumano em potencial. Desse modo, a menor diferença não desejada em uma pessoa concreta, é rapidamente considerada inumada. Basta olharmos qualquer operação do Estado. Mais ilustrativas que isso impossível: as operações, excessiva e ridiculamente exaltadas, realizadas pela polícia e pelas forças armadas. Primeiro, uma pretensa Guerra contra O Tráfico; pretensa, pois a guerra foi declarada unilateralmente contra um inimigo impalpável - pois quanto menos palpável for, melhor para justificar qualquer tipo de ação que se queira. Depois, o deslocamento monstruoso de um efetivo policial e militar, exibindo um poder de fogo (armas pesadas e tanques de guerra) somente visto nos desfiles de 7 de setembro (ou nos filmes-propaganda estadunidense). Em seguida, algumas prisões de familiares, principalmente esposas, de três ou quatro traficantes. Estes já presos há algum tempo. Também as prisões de alguns advogados que defendem os direitos de acusados de crime (nota: isso não é mesmo um Estado de Direito?). E por fim depoimentos melodramáticos, já visto várias vezes em diferentes situações, feitos pelos mais diversos setores sociais, representantes da Igreja, do meio artístico, funcionários do Estado, meio empresarial, incluindo alguns comerciantes dos próprios morros. O que vem como coroamento pela invenção de heróis de guerra: aqueles homens e mulheres que energicamente deram um fim à grande ameaça fantasma. Por fim, nenhuma inovação social: O poder político do Estado é legitimado, como suas mais antigas formas, coerção e violência, com a diferença que, com essa pretensa guerra, acrescentou um "corrigimos um engano" ou "esclarecemos um assunto". Coerção e violência ocultadas ideologicamente para aparecer como atos justos e humanos, já que lutam contra os "inumanos" dos morros cariocas. No entanto, alguns inumanos até merecem perdão, aqueles que vimos balançar panos brancos em suas janelas simbolizando bandeiras de paz. Gestos de desespero jamais visto no cotidiano das sociedades de favela. Pois a ocupação para a pacificação não é coisa do dia a dia, é coisa extra-ordinária. Ruptura violenta contra o cotidiano "inumano". Para apressados/as e alarmistas é impossível pensar o poder político sem a coerção e a violência.

A cada imagem e palavra sobre a ocupação da quimera do Estado Brasileiro (imagem defasada dos estados europeus e norte-americanos) nos morros cariocas, a impossibilidade de se pensar e realizar, ao menos uma inovação social, torna-se imperiosa. Pensar o social sem a coerção e a violência torna-se uma espécie de luxo para o/a mais distante livre-pensador/a (figura também considerada tão inumada quanto os/as moradores/as dos morros do Rio de Janeiro). Luxo por que se considera que a "realidade" exige morte, prisões e humilhações. Enquanto "civilização brasileira", generalização perigosa, não conseguimos, se quer dar um mísero passo à frente. Em pleno 2010, no tão exaltado "Estado Democrático de Direito", vivemos situações nem mesmo vividas na época da Ditadura Militar. A execução sumária, o julgamento antecipado e a tortura são situações necessárias para a garantia do cotidiano da "sociedade brasileira". À céu aberto, adora-se a "tolerância zero" como o mais novo ídolo que salvará almas e trará o paraíso à terra. Nenhuma violência mais fica restrita aos porões. Ela é exercida com pompas de "respaldo, desejo e clamor social". Essa tal "intervenção enérgica esperada há muito pela sociedade de bem" é o ato, de pretensa humanidade, que humilha todo o social. Pois, torna-o apolítico, submisso à agenda do Estado e de seus aliados, e ainda refém do poder político de gabinete. Essa humilhação nos impõe o pensamento de que, na ausência da coerção e da violência do Estado, nada existe. É isso a que fomos reduzidos/as? A buracos cujo fim é o preenchimento pelo Estado? Fomos reduzidos/as a esponjas-do-mar que devem internalizar a obediência e a idiotia como deveres sociais? É preciso que insurjamos contra esse modo violento e humilhador de retratar o social como inumano, apenas porque a instituição política estatal está ausente. Há muita política presente nessas sociedades dos morros cariocas. É preciso parar com o desprezo e corajosamente seguirmos na direção de querer entendê-la sem as ideologias pré-fabricadas e importadas. Devemos aproveitar esses últimos acontecimentos, tratado como "terrorismo", e buscarmos outra referência para nos pormos em movimento. Pois como está, a máscara do "fazer parte da história mundial", estamos mesmo é sendo conduzidos/as à frenética vocação às banalidades, aos empreendimentos ingênuos, e ao obscurantismo. Portanto, é preciso que encaremos, corajosa e livremente, a situação de que, a ausência de Estado nos morros cariocas não significa que lá exista e viva uma sociedade que falta política. Ser um/a morador/a de favela é fazer parte de uma sociedade política. É uma sociedade cujo poder está para ser descoberto, e não encoberto como o que se está fazendo com essa monstruosa e massificante demonstração de força bruta.


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