sábado, 1 de maio de 2010

Educação para a Subversão - por Paulo Ghiraldelli

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A intenção maior do Instituto Autonomia é o engajamento na necessidade pedagógica de que é preciso uma cultura política, não só quanto uma forma de resistência contra a opressão, mas também como uma forma criativa de se viver. Neste sentido não somos uma voz perdida na multidão. Há várias vozes que vêem e sentem tal necessidade. Uma voz interessante e de grande relevância é a do filósofo paulista Paulo Ghiraldelli. O texto a seguir é uma Filosofia da Educação preocupada com a questão do papel que a Educação ocupa e deve ocupar em nossas vidas. Belamente ele atribui à ela uma condição de ser que nos é condição fundamental para existirmos: a subversão. Assim o filósofo dá encaminhamentos para pensarmos uma Educação para a Subversão. Leiem o texto a seguir:

“Proletários do mundo, uni-vos!” – essa célebre frase que Marx e Engels imortalizaram no Manifesto Comunista serve hoje antes como história que como política. Não porque a força dos sindicatos diminuiu ou porque a idéia da melhoria das condições de trabalho caiu por terra. O que ocorreu foi algo um tanto inusitado: quanto mais todos nós nos tornamos trabalhadores, confirmando o prognóstico de Marx de proletarização universal, menos nós nos identificamos, nas nossas práticas de reivindicação e de sonhos, segundo fórmulas exclusivamente dadas pelo mundo do trabalho. Somos todos trabalhadores agora, mas estamos longe de acreditarmos que algo como “consciência de classe” tem algum valor para a nossa identidade. E isso também em relação às energias que possamos mobilizar em favor da defesa de qualquer tipo de utopia.

Quando notamos isso mais claramente, já na última década do século XX, fomos reforçados em nossa percepção pela derrocada da última proposta relativamente utópica de reorganização do mundo do trabalho. Era o fim da URSS. Ao mesmo tempo, a social democracia perdia sua força eleitoral diante da proposta de “estado mínimo”, que não era uma idéia conservadora em essência, mas que, do modo como entrou na política, cumpriu esse papel.

Assim, terminamos o século com a perda de força das utopias energizadas pela idéia de reorganização da chamada “sociedade do trabalho”, ou seja, de uma sociedade em que o trabalho é o seu ponto de partida e o seu eixo de organização material, moral e intelectual. O fracasso do nazi-fascismo foi a primeira baixa da “sociedade do trabalho”. A derrocada do comunismo foi a segunda baixa. A perda de prestígio político da social democracia e da nova proposta liberal de “estado mínimo” foram as baixas mais recentes. A política sente a mudança da sociedade, mas não tem muito mais para oferecer para um mundo em que as pessoas querem emprego, mas desejam o trabalho para sobreviver e não o querem para viver.

Estamos longe da época em que um funcionário do Banco do Brasil tinha orgulho de ser trabalhador do Banco. Esse sentimento contrário à companhia estatal trouxe conforto para os empresários de pouca visão. Eles acharam, por um breve momento, que, em troca, os funcionários do Bradesco ou do Itaú iriam ter orgulho de serem trabalhadores desses bancos privados, mas isso não ocorreu. Muitos acreditaram, então, que ao menos na “sociedade do trabalho” em sua melhor forma, os Estados Unidos, a idéia de “vista a camisa da empresa” ainda seria um lema válido. Mas que nada! Os últimos anos mostraram que nenhum americano se acha melhor que o outro por ser “Da Ford” ou, muito menos, de um banco qualquer. Aliás, no mundo todo, ninguém em sã consciência está se achando imortal por ser “Da Toyota” ou de qualquer outra empresa.

Algumas pessoas pensam, então, que poderíamos viver a recuperação do prestígio das ditas “profissões liberais”. Mas nós sabemos que elas não são liberais, mesmo, para muitos. As profissões liberais estão atreladas a grandes empresas, escritórios e organismos estatais. Médicos, engenheiros e advogados já não cumprem nenhum papel social dentro dos quadros de profissões ditas liberais. Eles se tornaram trabalhadores assalariados e, ao mesmo tempo, com o desprestígio da situação de ser trabalhador, viram a baixa moral contaminar seus aventais e ternos. Alguns já sentem a profissão que abraçaram com amor como um simples fardo. Querem a aposentadoria tanto quanto o funcionário do banco estatal ou privado.

Ser um astro do esporte ou da TV ainda é algo que conquista o jovem, pois há aí, ao menos em sonho infanto-juvenil, a idéia da projeção da individualidade que, enfim, o trabalho mais rotineiro nega. Ser alguém do mundo da mídia, hoje, é como ser astronauta nos anos 60. Nesse caso, o trabalho parece uma aventura e a vida prometida é tudo, menos o tédio da repetição dos afazeres no hospital, na universidade, na fábrica de bolachas ou no prostíbulo. Como o trabalho enquanto astro da mídia não pode ser para muita gente, resta ser um astro do Orkut ou do Facebook. Com mais talento, pode-se tentar o youtube. E isso não é pouco!

Um astro da Internet tem a vantagem de fazer o que faz por gostar de fazer, por ser amador e, portanto, de poder dizer que não faz aquilo por estar preso a míseros tostões de uma empresa qualquer. É como que um tipo de recuperação da prática do “profissional liberal”.  É trabalhar sem ter de dizer que se é trabalhador. “Eu sou trabalhador” é um brado que restou apenas ao muito pobre, e assim mesmo quando é apanhado pela polícia. E já está desaparecendo. Muitos preferem dizer, quando são presos, “eu sou da Igreja de fulano de tal”. Às vezes isso ajuda e às vezes isso é até pior.

Alguns teóricos da sociedade começaram a discutir essa questão do “fim da sociedade do trabalho” já antes mesmo desse drama ganhar essa conotação mais recente. Jürgen Habermas falou da “perda das energias utópicas da sociedade do trabalho” nos anos oitenta, em um texto que ainda guarda sua utilidade. (1) Naquela época ele não tinha possibilidades de dizer o que agora é fácil ver, que é o boom da Internet mostrando como as pessoas não estão mais ligadas pelo trabalho. Na Internet, elas podem até estar ligadas por algo que ainda se acopla ao trabalho, mas que roda em cima da satisfação de projeções individuais que vão muito além do trabalho. Os jovens querem ter suas identidades reconhecidas por pertencerem a grupos, esporádicos ou não, que são prioritariamente formados a partir da imagem. Daí a valorização da imagem do corpo. Daí a idéia de esculpir o corpo como quem está esculpindo a personalidade. Há antes um narcisismo permanente do eu-como-corpo que uma busca dos “15 minutos de fama” por conta de algum profissionalismo. Os tais “15 minutos” ficaram velhos, eles são resto de um momento do boom comunicacional ainda preso à “sociedade do trabalho”.

Em uma sociedade assim, a educação parece, à primeira vista, ter de ser a mais diversificada possível, em termos de ensino de afazeres e, talvez, profissões. Mas não é verdade. Em uma sociedade assim, para muitos a educação perde completamente qualquer valor. Ela é um dado a mais. Busca-se o diploma, não o conhecimento. Para outros, há ainda a busca de saber, e a educação escolar é vista como boa, neste caso, se der condições de realizar o que se quer em um prazo curto, ainda que não se saiba o que se quer.

Diante disso, filósofos, pedagogos, professores e legisladores que não ganharam, com o tempo, orelhas decepadas, se perguntam como organizar a escola e o ensino.

Como filósofo que se interessa seriamente pelas questões educacionais, estou convencido que a pior coisa que se pode fazer em uma sociedade como a nossa é atrelar a educação ao paradigma do trabalho, seja para tomar a relação educação-trabalho segundo a fórmula festejada por socialistas, a proposta da politécnica, seja para tomar a relação educação-trabalho pela fórmula liberal, a da escola profissionalizante para o pobre e escola propedêutica para o rico. Essas duas grandes propostas, com a subdivisão classista da última, são coisas que, a meu ver, estão completamente mortas. Quem apostar nelas estará apostando no cadáver.

De toda a discussão de filosofia da educação que conheço, talvez a única coisa que possamos aproveitar seja a idéia de re-significação de John Dewey, e que eu, pela via de Richard Rorty, alterei para a proposta de re-descrição.  A pedagogia que podemos manter como útil num mundo como o nosso, que não pode ser capturado por um rótulo único como foi o rótulo “sociedade do trabalho”, parece ser a pedagogia da “construção de narrativas redescritivas”. (2)

Em um mundo como o nosso, em que a informação chega às nossas mãos por milhões de canais, e que cada um fala de modo absoluto, para ter força retórica perante outros, o único instrumento de construção de boa cidadania, em termos de tarefa pedagógica, é o desenvolvimento da capacidade de redescrição.

Para cada narrativa que nos chega, temos de saber mostrar que ela pode ser redescrita. Temos de mostras, às vezes, que ela deve ser redescrita. A tarefa de interpretação, nesses moldes, é a maneira que temos de reconstruir e remodelar o que nos é mostrado como absoluto, e que nós, com a redescrição, só pelo fato de colocarmos na praça mais uma versão, já relativizamos. A relativização cumpre aí um papel fundamental. Que ninguém fale mais só porque fala em nome de autoridades, ainda que elas não sejam mais as velhas e pré-modernas autoridades.

Autoridades novas como a ciência, a mídia, a religião-como-negócio e o comando político pseudo-democrático não devem nos empurrar para fora do tablado. Epistemologia, comunicação, empreendimento divino e plutocracia disfarçada de democracia não estão “com essa bola toda” que apresentam. Para cada verdade desses quatro elementos do demônio, podemos apresentar a nossa verdade. Esse é o valor que vejo, ainda, na educação. A educação não é um instrumento para criticarmos visões alheias e, sim, para redescrevermos as visões alheias e também os emissores de visões alheias. Nesse sentido a redescrição é, sim, o elemento que a boa pedagogia pode nos ajudar a aprender a fazer, de modo a fustigarmos os donos da verdade, os que se dizem mais capazes que nós mesmos na atividade de comandar as nossas vidas.

Para cada versão dita absoluta, temos a nossa redescrição. Para cada versão dos poderes constituídos, temos a nossa subversão. A educação pode, sim, cumprir essa atividade subversiva.

Paulo Ghiraldelli Jr, filósofo, escritor e professor da UFRRJ
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1. Ghiraldelli Jr. P. Educação e razão histórica. São Paulo: Cortez, 1994.
2. Ghiraldelli Jr., P. O que é pedagogia. São Paulo: Brasiliense, 2007.

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